Sangue azul
Comentário Rádio Santamariense, 7h20
Um motorista bêbado de 19 anos colidiu em dois carros essa semana em Brasília. Era uma tarde de sol, ninguém ficou ferido, a polícia chegou ao local, mas a placa do carro que causou o acidente era azul com letras brancas, usada pelas embaixadas, as representações diplomáticas em Brasília.
Quase caindo de bêbado, Sebastian, estudante de medicina, saiu do carro e não vacilou. Admitiu que tinha bebido e apresentou uma carteira especial que o identificava como filho do embaixador paraguaio Luis Gonzáles Arias.
Por causa da imunidade diplomática, o motorista não fez o teste do bafômetro, não foi para a delegacia, o Detran não vai abrir processo, nem a multa aplicada pela polícia precisará ser paga. São privilégios a diplomatas e seus familiares.
Se fosse um brasileiro e, importante dizer, sem direito a dar carteiraço, teria a habilitação retida, pagaria multa de mil reais e o veículo seria apreendido. Provavelmente também seria preso, o que é comum desde junho com o vigor da lei seca.
Voltando para os estrangeiros protegidos pelo estado brasileiro e pelas convenções diplomáticas, são mais de mil veículos rodando na capital federal com as “placas-do-pode-tudo”. Não são registrados, nem pagam multas.
Imagine que o assunto incomodou até o Senado. A Comissão de Relações Exteriores quer informações a respeito das imunidades de diplomatas e de seus familiares, especialmente no que diz respeito ao cumprimento das leis de trânsito. O requerimento foi apresentado pelo vice-presidente da comissão, senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG).
E o Brasil tem um órgão que cuida da diplomacia estrangeira. Fica dentro do Itamaraty e se chama Coordenação-Geral de Privilégios e Imunidades. Consultei as atribuições de tal fidalguia. Determinar, executar e supervisionar, em conformidade com a legislação brasileira e com base no princípio da reciprocidade de tratamento, repito reciprocidade de tratamento, os benefícios decorrentes dos privilégios e imunidades das missões diplomáticas e repartições consulares. Fico pensando se um brasileiro, filho de um embaixador que fosse, teria esse privilégio no estrangeiro. Talvez no Paraguai tivesse é verdade, mas algumas milhas à frente ou do outro lado do Atlântico, o tratamento seria outro.
Voltando à sugestiva Coordenação-Geral de Privilégios e Imunidades para a diplomacia internacional, como funcionaria uma coordenação de privilégios para o alto escalão brasileiro? Moradia, saúde, segurança, transporte, alimentação, tudo merecido se não fosse exagerado em centenas de gabinetes e mansões do planalto central. Já pensou como coordenar tanta regalia…
Não podemos esquecer que embora dizem que a economia do Brasil vai bem, mesmo com a crise, nosso povo, esse que banca a vida na corte, é pobre. Pobre sem perder a esperança de dias mais justos.



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