Por Eurico Antônio Gonzalez Cursino dos Santos
A Constituição de 1988 criou uma sociedade política democrática no DF. O governo, antes composto por indicações diretas que obedeciam à racionalidade técnica emanada do Poder Executivo Federal, passou a ser formado pelo voto dos moradores da capital em candidatos igualmente habitantes da região. Vejamos quais têm sido os interesses e os ideais dos grupos sociais presentes nesse jogo democrático.
Os governados podem ser divididos em dois grandes grupos, os de renda baixa e os de renda alta e média.
Os de baixa renda tenderam, nos 22 anos de vida democrática do DF, a trocar seus votos por favores e vantagens pessoais: asfalto na própria rua, atendimento médico custoso, pequeno emprego e, principalmente, o lote, o terreninho, este tornava o despossuído e sua família, proprietários, e gerava uma gratidão enorme e razoável ao grupo político do ex-governador Joaquim Roriz. Ele descobriu o filão e, no seu rastro, semeou eleitores e lealdades no solo de que se viu administrador (observe-se que o DF resultou, parcialmente, de desapropriações, feitas ao final dos anos cinquenta, de fazendas da família Roriz…), formando novas cidades. Santa Maria, Riacho Fundo, Recanto das Emas e toda sorte de urbanizações com estatuto administrativo precário, como as extensões de Sobradinho, de Planaltina, do Paranoá e outras, nasceram, culturalmente, sob o signo da dívida existencial e filial ao “pai” Roriz.
O eleitorado de renda e de escolaridade média e alta, por seu turno, tendia à indiferença para com a política local, dela esperando não mais que a manutenção da boa estrutura administrativa existente antes de 1988, época em que “tudo funcionava”. Se os candidatos do grupo do ex-governador Roriz se mostrassem capazes de “tocar a administração”, imagem de que gozava, por exemplo, o sr. José Roberto Arruda, o eleitorado médio neles votaria, ou, ao menos, não se desgastaria para combatê-los, fazendo vista grossa às “ligações perigosas” que há muito já se deixavam observar, por exemplo, nas colunas sociais dos jornais da capital…
Miremos agora a “oferta” política. Para isso, façamos a pergunta óbvia: quem tinha “ânimo de ficar” e de dizer: esta é a “minha cidade” e “quero assumir a responsabilidade por ela”? Resposta: o mesmo pessoal que, historicamente (desde antes da fundação do DF), mandava por aqui, representado emblematicamente pela figura do sr. Roriz. Esse grupo possui uma cultura política que se chama, em Sociologia, de capitalismo político, ou seja, quando o ganho econômico é visto como devendo provir da ocupação de postos no Estado, de modo a dispor para si próprio oportunidades de negócios com vantagens sobre quem “não está no circuito”. Para tal grupo, o “rouba, mas faz” não significa senão o legítimo pagamento pelas dores de cabeça tipicamente resultantes da administração de uma grande cidade.
Daí a amoralidade que nos incomoda duplamente: por ela mesma, em si, e pelo fato de que nós, os chocados, com ela colaboramos por ação ou omissão…
O modelo de Modernidade que perseguimos supõe a efetividade de “interesses ideais” que gerem motivações, em grau sociologicamente relevante, derivadas dos valores de igualdade e liberdade. Dada a falta crônica dessas motivações, nossa Política tende sempre a ser colonizada pela Economia, tende ao capitalismo político. E quando há reação contra isso, como agora, descobrimos, perplexos, que ainda que sejamos capazes, por meio das instituições blindadas pela Constituição de 1988 (note-se que todos os atores que atacam o governo do sr. Arruda têm tal origem comum – O STJ, o Ministério Público, a forma atual da polícia e da Justiça federais), de desalojar o capitalismo político do poder, não temos outra coisa para por em seu lugar. O sr. Roriz já começa a se mover, à espera de que o poder volte a cair em seu colo, o que terminará acontecendo caso não surja (e seu surgimento é um problema importante) oferta política autóctone e moralizada por ideais transcendentes e modernos.
Dores do crescimento? É possível. Delírios de moribundo? Também é possível. As cartas do futuro estão sendo distribuídas agora. As tendências modernizantes emanam das instituições da Constituição de 1988, de nossa história recente. Assim como as tendências arcaicas emanam de nossa história profunda. O resultado mais provável é alguma sorte de composição entre elas, alguma espécie de mistura do passado arcaico, iletrado, que não gosta de formar indivíduos autônomos, cujos interesses pessoais sejam vasados em uma vida marcada pela moralização da mente e do coração, com o presente modernizante e racional, que supõe a autonomia moral sobre bases universais. O passado recente já mostrou tais combinações, sob a forma, no caso do DF, de fachadas de respeitabilidade que ocultavam bastidores sem traço de autor-reprovação moral por parte de elites locais que não conseguem sentir, lá no fundo de suas almas, vergonha pelo que fazem. Desempenhavam, assim, de coração, o papel de mentir e burlar, com desprezo compreensível por aqueles, letrados e iletrados, que se deixavam enganar.
Bismarck, o célebre estadista que gerou o embrião da atual Alemanha, costumava dizer que quanto a “leis e salsichas, o melhor é não sabermos como são feitas”. Pois bem: agora sabemos. Comemos o fruto da árvore do conhecimento. Devemos, então, digeri-lo…
*Eurico Antônio Gonzales Cursino dos Santos é chefe do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília e consultor legislativo (licenciado) do Senado Federal para a área de sistemas políticos e direitos da cidadania. Via site UnB.
Siga o Blog do Marlon no twitter.
Marlon Herath Política Mensalão do DEM
Posts mais comentados